Pessoas negras e o mercado de trabalho: consciência é oportunidade

19/11/2025


A cada novembro, o debate sobre a Consciência Negra retorna com força. Mas, mais do que um feriado, a data é um lembrete de que as desigualdades históricas ainda moldam o presente, inclusive no mercado de trabalho. Mesmo com avanços, as pessoas negras continuam em desvantagem no acesso a emprego, educação e renda. 


Desigualdade estrutural no trabalho

Segundo dados do IBGE, divulgados em 2025, o desemprego ainda atinge mais pessoas pretas e pardas do que brancas. Além disso, quando essa população conquista um emprego, as diferenças persistem: os cargos de liderança seguem majoritariamente brancos e as oportunidades de crescimento são limitadas.


O levantamento realizado pelo Centro de Estudos sobre Desigualdades Raciais (CEDRA), com base em dados da PNAD Contínua (2023), mostrou que a hora trabalhada por uma pessoa branca chegou a valer até 58,3% a mais do que a de trabalhadores(as) negros(as), um reflexo de como a cor da pele ainda define o valor do trabalho no Brasil.


Mulheres negras: uma luta em dobro

Entre as mulheres, o peso da desigualdade é ainda maior. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (2025), as mulheres negras ganham, em média, 53% menos que os homens brancos e estão concentradas em funções operacionais, raramente chegando à liderança.


Além das barreiras profissionais, enfrentam índices alarmantes de violência de gênero e insegurança alimentar, reflexos diretos do racismo e do machismo estruturais. Muitas vezes, a falta de oportunidades perpetua um ciclo de violências: sem um salário digno, as mulheres permanecem em relações abusivas por dependência financeira.


Juventude negra: o racismo ainda atrapalha a esperança

De acordo com a Pesquisa Diversidade Jovem do Espro, de 2024, 41% dos(as) jovens negros(as) já foram excluídos(as) no ambiente de trabalho e 38% não tiveram reconhecimento por suas ideias, números que revelam não a falta de talento, mas a falta de espaço.


A educação é vista como o principal caminho para romper ciclos de exclusão, mas o acesso desigual e o racismo estrutural continuam a dificultar esse percurso. No Rio de Janeiro, sete em cada dez moradores(as) de favelas são negros(as), e muitos(as) jovens convivem diariamente com a violência que interrompe sonhos e estudos.


A Consciência Negra é todos os dias. A luta por igualdade vai além das campanhas de novembro: começa com o reconhecimento das desigualdades e a implementação de políticas públicas e ações concretas para mudar essa realidade.


O Sindicato dos Comerciários de São Paulo teve papel pioneiro na promoção da igualdade racial ao incluir, ainda em 2004, cláusulas de cotas para trabalhadores negros em acordos coletivos de trabalho. Em parceria com empresas como a Camisaria Colombo e a Têxtil Abril, o Sindicato estabeleceu metas concretas para ampliar a contratação e a permanência de pessoas negras no comércio, antecipando um debate que só anos depois ganharia força no país.


Essa iniciativa abriu portas, fortaleceu a representatividade dentro das empresas e demonstrou que ações afirmativas eram possíveis e necessárias no setor. Ao assumir essa liderança, o Sindicato mostrou que a negociação coletiva podia ir além dos temas tradicionais e atuar diretamente no enfrentamento da desigualdade racial. Seu protagonismo contribuiu para inspirar outras entidades sindicais e consolidou um marco histórico na luta pela inclusão e pela construção de um mercado de trabalho mais justo e diverso.

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