Desigualdades persistentes e o futuro do Brasil
02/12/2025
A ascensão social no Brasil permanece difícil, especialmente
para quem cresce em famílias com menor renda. Progredir socialmente muitas
vezes se torna uma luta pela sobrevivência, enquanto a perspectiva de uma vida
mais digna se afasta. Apesar do acesso ao mercado de trabalho ter aumentado, os
trabalhadores de baixa renda continuam concentrados em funções mal remuneradas,
segundo levantamento da Tendências Consultoria, realizado em 2025.
O mercado de trabalho brasileiro é marcado pela
informalidade elevada e salários insuficientes, as melhores condições estão
centralizadas em poucos setores. Como consequência, muitas famílias seguem
presas a um ciclo de pobreza ao longo de gerações. Apenas 2,5% dos nascidos
entre os 25% mais pobres conseguem, na vida adulta, alcançar o grupo dos 25%
mais ricos; essa constatação foi revelada pelo Atlas da Mobilidade, do
Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) de 2025.
O histórico social familiar impacta diretamente o futuro das
novas gerações, restringindo suas chances de ascensão e gerando frustração, de
acordo com o Atlas da Mobilidade do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento
Social (IMDS), de 2025. Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão
a baixa qualidade da educação básica, itens de consumo cada vez mais caros e a
própria estrutura desigual do país.
Os juros altos aprofundam o abismo social
Essa realidade se intensifica diante de políticas econômicas
que ampliam ainda mais as desigualdades. Taxas de juros elevadas corroem a
renda das famílias, tornando quase impossível fechar o mês ou conseguir
recursos para moradia ou educação. A cada aumento da Selic, o crédito se torna
mais caro, afetando cartões, empréstimos e financiamentos. Atualmente, a taxa
está em 15%, e o Brasil registra um recorde de inadimplência: quase 80 milhões
de pessoas devem, juntas, meio trilhão de reais, segundo os dados do Mapa da
Inadimplência do Serasa deste ano.
O impacto dos juros altos se estende além das dívidas
domésticas. Eles geram uma reação em cadeia: as dívidas mais caras reduzem
oportunidades de trabalho, enfraquecem a economia, diminuem as chances de
ascensão social e concentram riqueza nas mãos de poucos. Com isso, os mais
ricos aumentam seu poder econômico, enquanto trabalhadores(as) que se esforçam
para sobreviver têm suas condições de vida ainda mais comprometidas.
Para agravar mais a situação, o Brasil também enfrenta o
avanço da informalidade, atualmente, 37,8% dos trabalhadores, cerca de 38,7
milhões de pessoas, estão fora dos vínculos formais. Os dados são do PNAD
Contínua Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
Portanto, a desigualdade não se resume ao esforço
individual. Superar barreiras sociais não depende apenas da quantidade ou
qualidade do trabalho exercido; muitas vezes, a mobilidade social exige
privilégios que nem todos possuem. Compreender essas conexões é fundamental
para pensar em políticas públicas que promovam justiça social e permitam que
todos tenham a oportunidade de construir um futuro digno.
A desigualdade brasileira é um fenômeno histórico. Desde o
período colonial, quando privilégios foram concentrados nas mãos de poucas
famílias, o país estruturou um sistema que restringiu o acesso à educação,
renda e dignidade. Em 1808, com a criação da primeira faculdade do Brasil — a
de Medicina da Bahia —, o ensino superior já nascia restrito às elites. Mais de
dois séculos depois, em 2025, o cenário ainda reflete esse legado: as melhores
oportunidades e os melhores salários seguem sendo privilégio de poucos.
É enfrentando essa estrutura de exclusão que o Sindicato dos
Comerciários de São Paulo (SECSP) atua diariamente. A defesa do trabalho
decente, de jornadas humanas e de salários minimamente aceitáveis é o eixo
central do compromisso do Sindicato com uma sociedade verdadeiramente
democrática.
Uma das ações marcantes da entidade é realização dos mutirões de emprego voltados para o público LGBT+ e a participação ativa na Reatech,
feira dedicada à inclusão de pessoas com deficiência. Ali, o Sindicato abre
portas, recebe currículos, apoia projetos e mostra que inclusão não é
discurso—é prática. É assim que se cria acesso a empregos dignos para as
pessoas historicamente excluídas.
Outro marco é a luta pela equidade de gênero, na qual o
SECSP teve papel fundamental para que a Lei nº 14.611/2023 fosse sancionada
pelo presidente Lula. Ao garantir salário igual para mulheres e homens
exercendo a mesma função, o Sindicato reafirma que justiça social também se faz
através da valorização profissional e do combate às desigualdades estruturais.
No campo da educação e da formação cidadã, o Projeto Ponte
BrasilItália, em parceria com a UIL Pensionati, oferece atividades
extracurriculares a crianças e jovens de 6 a 17 anos. É um investimento direto
no futuro, ampliando acesso à cultura e quebrando o ciclo que impede milhares
de jovens de terem oportunidades iguais.
E não há como falar de igualdade sem enfrentar a cruel escala
6x1, que retira descanso, destrói o convívio social e impede trabalhadores de
estudar e se qualificarem. Esse modelo de jornada aprisiona o (a) comerciário(a)
numa rotina exaustiva que impede qualquer ascensão profissional. Ao lutar pelo
fim do 6x1, o Sindicato defende não apenas mais folga — defende mobilidade
social, dignidade e tempo para viver.
Cada uma dessas ações mostra que romper com a desigualdade estrutural exige coragem, organização e compromisso com quem trabalha. Por isso, o Sindicato dos Comerciários segue firme na defesa de uma sociedade justa, democrática e com oportunidades reais para todos — não apenas para os herdeiros dos privilégios de ontem, mas para cada trabalhador e trabalhadora que constrói o Brasil de hoje.

