Chuva em SP prejudica comércio, alaga a Ceagesp e pode encarecer alimentos

11/02/2020

O temporal que atravessou a noite de domingo (9) e que continuou nesta segunda-feira (10) causou prejuízos que podem ultrapassar os R$ 140 milhões.

Lojas e shoppings fecharam porque funcionários não conseguiram ir trabalhar, empresários perderam estoques e comércios tiveram negócios reduzidos por falta de clientes.

 

Algumas agências bancárias permaneceram fechadas o dia todo. O movimento nos restaurantes caiu pela metade.

A FecomercioSP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) estima um prejuízo de R$ 110 milhões nas vendas do comércio varejistas na região metropolitana —0,4% do faturamento total de fevereiro.

 

O cálculo considera compras por impulso —feitas no dia a dia sem planejamento prévio— que deixaram de ser realizadas por falta de consumidores e levam em conta de supermercados a farmácias, de lojas de vestuário a combustíveis.

 

"Quem faz a compra do mês ou se programou para comprar um eletrodoméstico fará isso nos próximos dias. Mas quem compraria por impulso se estivesse passando por alguma loja na volta do almoço, por exemplo, não comprará mais", disse o assessor econômico da federação, Guilherme Dietze.

Os impactos das chuvas somam-se ao movimento já mais fraco de fevereiro, com menos dias úteis e Carnaval.

 

"Será difícil para que os lojistas consigam diluir a perda. Há um prejuízo muito grande para o comércio que vai além das vendas não feitas", afirma o economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Marcel Solimeo.

 

Alguns shoppings fecharam mais cedo, como o West Plaza (zona oeste de São Paulo) e o Shopping D (zona norte), que encerrou as atividades às 18h. "A medida tem como principal objetivo zelar pela segurança e pelo conforto de colaboradores, clientes e lojistas", informou o Shopping D.

 

Outros, como Villa Lobos (zona oeste) e o Pátio Higienópolis (região central), nem sequer abriram, disse a Abrasce (associação de shoppings).

A Alshop (associação de lojistas de shoppings) afirmou, em nota, que alguns estabelecimentos ficaram o dia todo sem energia elétrica, além de algumas lojas terem sofrido perda de mercadorias.

 

Tradicionais centros de compra do centro de São Paulo, o Brás, o Bom Retiro e a rua 25 de Março sentiram o impacto das chuvas, seja pela ausência de clientes, seja pela falta de funcionários que não conseguiram chegar ao trabalho.

 

"Muitas lojas fecharam mais cedo por causa do fraco movimento. As baixas foram bem grandes", afirmou vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) do Bom Retiro, Nelson Tranquez Junior.

 

"O mês é curto, e venda perdida não se recupera. Mas amanhã é um novo dia", afirma o gerente da loja matriz da Armarinhos Fernando, Ondamar Ferreira, na 25 de Março, que espera um movimento melhor nesta terça (11).

 

Para Dietze, da Fecomercio, o prejuízo do setor pode ser até maior do que os R$ 110 milhões quando somado às possíveis perdas de equipamentos e produtos.

Também houve falta de abastecimento de produtos alimentícios de entrega diária, entre outros transtornos, mas a associação não registrou incidente grave nos estabelecimentos comerciais.

 

"Essa perda não deve ser recuperada tão rápido, mas, pela previsão do tempo que estamos vendo, a expectativa é que não tenhamos mais chuvas tão longas. O que vai determinar o andamento do comércio é o escoamento da água. Enquanto tivermos limitações de transporte, continuaremos a ter perda no varejo" Guilherme

 

Dietze, assessor da FecomercioSP

As previsões, porém, são de mais chuvas nos próximos dias. Segundo o governo do estado, num curto período de três horas choveu o que era esperado para todo o mês de fevereiro.

 

Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram. A Ceagesp, maior central de abastecimento de alimentos da América Latina e terceiro maior do mundo, e que fica próximo à confluência dos dois rios, foi alagado, causando perda de alimentos que poderá se reverter em falta de produtos nos próximos dias –como para o abastecimento de feiras e restaurantes–, com possível impacto inflacionário.

 

"O Pinheiros entrou na Ceasa, imagina o quanto de sujeira não tinha lá. Nós não podemos operar nessas condições. Teremos que fazer a lavagem completa do entreposto", afirmou Cláudio Furquim, presidente do Sincaesp (sindicato dos comerciantes que atuam na Ceagesp).

 

O Sincomat (Sindicato do Comércio Atacadista de Hortifrutigranjeiros e Pescados) diz que praticamente toda a mercadoria que estava na Ceagesp deve ser perdida, com risco de faltar alimentos e de os preços subirem nos próximos dias.

 

Nos cálculos de Furquim, o volume de mercadorias que circulam às segundas-feiras pelo local tem valor por volta de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões.

Além disso, a Ceagesp informou que as feiras de pescados e flores não iria funcionar na madrugada desta terça.

 

Na avaliação de Furquim, se a chuva amenizar, será possível limpar o entreposto nesta terça, para tentar trabalhar na quarta-feira (12). Mas disse acreditar que o trabalho só deve se regularizar na madrugada de quinta-feira (13).

 

A segunda-feira, porém, é o dia da semana em que há o maior fluxo de mercadorias na Ceagesp –é, para a maioria dos feirantes, o dia de abastecimento para a semana. Transitam aproximadamente 16 mil caminhões, transportando algo em torno de 14 mil toneladas de produtos.

 

Nem tudo foi perdido, porque, quando as águas começaram a invadir o local os comerciantes conseguiram salvar parte da mercadoria e caminhoneiros, ao perceberem a situação, deixaram a Ceasa.

 

Mas, segundo Furquim, todas os produtos que tiveram contato com a água serão descartados, inclusive os que estavam em câmaras frias.

O descarte de alimentos na Ceagesp deve afetar o abastecimento de supermercados, bares e restaurantes.

 

Os primeiros produtos afetados devem os de reposição diária, como folhagens. O efeito só deve ser menor porque, em geral, produtores fazem entregas diretamente aos supermercados.

 

No caso das frutas e dos legumes, a resistência é um pouco maior e pode chegar a quatro dias. Se as vendas no entreposto não forem normalizadas nesse período, a oferta pode cair –e, nesse caso, os preços aumentarem.

 

"Tudo vai depender de quanto tempo vai levar para a Ceagesp voltar ao normal e também de como ficou a situação do cinturão verde [área de produção de hortaliças na região metropolitana]. Se não regularizar em dois ou três dias, vamos ter falta de produto". Ronaldo dos Santos, presidente da Apas (Associação Paulista de Supermercados)

 

Percival Maricato, da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) em São Paulo, diz que o movimento na hora do almoço caiu pela metade nesta segunda-feira.

 

Como nos supermercados, o efeito das chuvas ainda dependerá da situação na Ceagesp. "As pessoas vão procurar adequar ao que têm, trocar pratos, fazer promoções. Deve levar uma semana para haver uma regularização.

 

Entre os feirantes, o temor é o de não terem produtos suficientes para as feiras livres desta semana. Guilherme Diniz, diretor-executivo Associação dos Feirantes, que reúne 10 mil comerciantes no estado, diz que o levantamento inicial da entidade indica que até 60% deles não terão produtos suficientes nesta semana.

 

A associação está monitorando a situação das feiras. Inicialmente, nenhuma está suspensa. "Vamos esperar para saber a situação no cinturão verde e também de quem estava na estrada, trazendo a mercadoria", disse.

 

Guilherme Moreira, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe, afirmou que haverá impacto nos preços, mas que isso deve ser diluído ao longo do tempo. Na sua avaliação, o reflexo da forte chuva virá mais pelas produções afetadas do que pelo impacto na Ceagesp. 

 

"Ainda é difícil dizer o impacto que isso vai ter, mas provavelmente haverá em produtos frescos. Não tanto pela Ceagesp [inundada], porque você não perdeu a safra toda ali. A preocupação é mais pelas produções."

 

Segundo ele, todo começo de ano o índice de preços é impactado por algum produto que sofreu com as chuvas.

 

A Fiesp (federação das indústrias de São Paulo) não tem levantamento de possíveis efeitos sobre a produção no estado. O Sincopetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de São Paulo) informou que no período da tarde já houve entrega.

 

Fonte: Folha de S.Paulo