Comércio espera com ansiedade auxílio emergencial para retomada

22/02/2021

A retomada do auxílio emergencial, ainda que em valores menores que os R$ 600 do ano passado, é a esperança de sobrevivência dos pequenos negócios já há muito com as finanças no vermelho por causa da crise econômica provocada pela pandemia da covid-19.

Concebido como benefício social para as famílias em maior vulnerabilidade social, o auxílio manteve as vendas dos pequenos e dos grandes comércios e com isso também os empregos. Sem o benefício, R$ 34,2 bilhões deixam de ser investidos na economia paulista em 2021, segundo estimativa da Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo).

O auxílio emergencial, inicialmente de R$ 600, serviu às famílias de baixa renda na compra de bens essenciais, principalmente alimentação, por conta do desemprego em alta. O Estado, segundo a Fecomércio, tinha antes da pandemia aproximadamente 410 mil empresas, que empregavam 2,5 milhões de pessoas. No final de 2020, cerca de 60 mil empresas fecharam as portas e restaram 2,1 milhões de empregos. Ou seja, 400 mil perderam o emprego, o que fez do auxílio federal a única forma de sustento para milhares de famílias. “Fizemos um estudo sobre o impacto do auxílio sobre a renda das pessoas considerando as faixas de renda de E até a faixa A. Na faixa E para 50 milhões de pessoas o auxílio aumentou a renda em 60%, enquanto nas demais faixas a renda caiu durante a pandemia”, explica Altamiro Carvalho, assessor econômico da Fecomércio.

No discurso de apresentação na primeira sessão da Câmara de Diadema, o prefeito José de Filippi Júnior (PT) mostrou preocupação com a economia da cidade pois, dos cerca de 400 mil habitantes, 100 mil receberam o auxílio emergencial, um quarto da população. Para o assessor da Fecomércio, essa situação mostra como a região metropolitana de São Paulo, que inclui o ABC, é mais profundamente impactada pela crise econômica provocada pela pandemia, e como também é dependente do auxílio emergencial. “O ABC é uma região de extrema relevância, pela maior proximidade com a Capital e os municípios estão mais expostos, pois o desemprego é mais elevado por conta da perda de empresas”, comenta.

Não foi possível, no estudo da Fecomércio, mapear por município o impacto da falta do auxílio emergencial, mas é possível verificar os setores que mais perderam e até os que cresceram. “O destaque negativo fica para o setor de vestuário e calçados, e o de vendas de veículos, em geral são os pequenos negócios os mais vulneráveis e que sofreram com o fechamento obrigatório no início da pandemia. De outro lado temos os supermercados, setor que cresceu 20% em 2020 e responde por 1/3 do varejo”, relata.

Filipe dos Anjos, proprietário da Philip Shop, loja de roupas masculinas no Centro de Diadema, é exemplo de empresário que sofreu para manter as portas abertas em 2020, numa das piores crises dos 56 anos de história da loja. “As pessoas têm trabalhado em casa, saem pouco, praticamente não há eventos corporativos ou sociais, então não compram roupas”, comenta o comerciante, que viu as vendas despencarem, mesmo na Black Friday e Natal. “Refiz meu planejamento, comprei menos, foi melhor faltarem alguns itens do que sobrar mercadoria. O Natal de 2020 ficou 40% menor do que 2019”, calcula. O auxílio emergencial não trouxe muito efeito no segmento e confirma a análise da Fecomércio.

Associações comerciais

O presidente da Acisbec (Associação Comercial e Industrial de São Bernardo do Campo), Valter Moura, aposta que a volta do auxílio emergencial, mesmo que em valores menores, não vai ajudar só as famílias que não têm recursos, vai também oxigenar a economia. “Vai ajudar quem não tem nada e vai trazer uma solução temporária para a crise. A solução mesmo é só a vacina; vacinar todos para que o consumidor possa voltar a sair e consumir. O beneficiário recebeu R$ 600 e agora vai receber metade, ou até menos que isso, mas é melhor que não receber nada e isso vai ajudar principalmente o pequeno comércio, aquele do bairro”, comenta.

Pedro Cia, presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), calcula que entre 60% e 70% do auxílio emergencial foi usado para a compra de bens de consumo, com isso os grandes supermercados abarcaram também uma parcela maior de outros segmentos, como o de vestuário e eletrodomésticos, isso afetou o mercado. Na Acisa, tem feito campanhas para incentivar a compra no comércio do bairro, naquele pequeno comerciante que sofreu muito. “Criamos plataforma digital de vendas e, em parceria com o Sebrae (Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa), demos cursos de como vender pela internet e até como negociar crédito com os bancos”, aponta. Para Cia, isoladamente o auxílio emergencial não vai fazer o comércio tirar o pé da lama. “O governo tem de se mexer, fazer as reformas saírem do papel, reduzir a carga tributária”, analisa.

Altamiro Carvalho diz que esperança está nas reformas prometidas. “Hoje o comerciante lida com muita burocracia e impostos incondizentes com a sua capacidade. O Estado tem de ser reduzido, ficar mais enxuto e simplificar a carga tributária, coisas que aumentam a cada dia, ao longo de décadas”, resume.

Otimismo

Para todos otimismo é a palavra. Filipe dos Anjos não tem grandes expectativas para 2021, com ou sem o auxílio emergencial, seu horizonte mira 2022. Diz que as perspectivas não são boas e antes do fim do primeiro semestre não vê possiblidade de melhora. O comerciante prepara parceria com um grande fornecedor, que vai investir na fachada e na organização interna da loja e, em contrapartida, vai aumentar a sua participação em produtos. “É um mix de investimento, meu, do parceiro e até do banco com o qual fiz um acordo para que a loja seja indicada para os clientes, como um pacote ou clube de vendas. Estou me preparando para 2022, quero ter minha loja pronta para a retomada”, afirma.

Fonte: www.reporterdiario.com.br