No Dia da Consciência Negra, conheça lugares que preservam a memória afro de São Paulo

20/11/2020

Pouca gente sabe, mas na praça Antônio Prado, no coração de São Paulo, está uma estátua de Zumbi dos Palmares. O ex-escravo foi morto em 20 de novembro de 1695, data em que, séculos depois, passou a ser celebrado o Dia da Consciência Negra. O monumento não está ali à toa. Ele relembra histórias que a cidade se esquece de contar.

Ali, no século 17, ficava a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, onde negros livres e escravos se encontravam em ritos religiosos, congadas e batuques. Não muito longe, na Liberdade, bairro que hoje é tomado por referências orientais, escravos eram enforcados. No Arouche, um busto de Luiz Gama rememora os feitos de um ex-escravo que ajudou a libertar mais de 500 pessoas.

Algumas dessas memórias fazem parte dos roteiros da Diaspora.Black, empresa que promove passeios relacionados à população negra em 150 cidades de 15 países. São Paulo foi a primeira delas. “Existe uma série de apagamentos, intencionais ou não, de marcos da cidade. O trabalho que a gente faz é ir na contramão disso. É importante saber o que aconteceu para podermos fazer diferente”, diz o cofundador do projeto, Antonio Pita.

Segundo ele, é importante contar que a essência da cidade está entrelaçada à memória negra. “Se São Paulo é o caldeirão que é hoje, também é em função da população negra, tanto na fundação da cidade, com o suor e a construção de catedrais, quanto no legado da arquitetura de Tebas, da literatura de Carolina Maria de Jesus, do terreiro, do samba, da capoeira”, enumera.

Para manter esses espaços pulsantes e celebrar o Dia da Consciência Negra, comemorada nesta sexta (20), o roteiro a seguir foi feito com a curadoria da Diaspora.Black e propõe visitas a marcos negros da cidade. Vários deles estão presentes nos tours da companhia, que fará edições especiais ao longo do mês —saiba mais sobre datas e ingressos no fim do roteiro. É só separar um mapa e uma máscara. E bom passeio.

Axé Ilê Obá
Primeiro terreiro tombado como patrimônio cultural de São Paulo, o espaço fundado em 1975 é conhecido pelo histórico de luta pela preservação e difusão das religiões de matriz africana. Atualmente, o espaço é comandado por Sylvia de Oxalá e está com as celebrações coletivas pausadas durante a pandemia, mas a mãe de santo segue com os jogos de búzios no local.
R. Azor Silva, 77, Jabaquara, tel. (11) 5588-0017. Seg. a sex. 9h às 18h. Sáb. 9h às 14h. Para jogo de búzios, é necessário agendamento p/ tel. ou instagram.com/axeileoba

Casa Mestre Ananias
Uma das paradas da caminhada da Diaspora.Black pelo bairro do Bexiga é esta casa, fundada pelo baiano Ananias Ferreira, um dos precursores da capoeira na cidade. Aulas e samba de roda comandam a programação —na pandemia, só as aulas foram mantidas.
R. Conselheiro Ramalho, 939, Bela Vista, tel. (11) 3926-0676. Seg. qua. e sex. 19h às 21h. Aula de Capoeira: Mensalidade R$ 150. Matrícula R$ 30

Casa PretaHub
O projeto do espaço foi inaugurado neste ano como um braço do Instituto Feira Preta e um polo de produção criativa para empreendedores negros. Na sede, o público tem acesso a livros, gastronomia e exposições. Já os empreendedores contam com salas de reunião e estúdios de som e vídeo. Há ainda uma loja colaborativa, um café, uma sala de leitura e uma galeria.
Av. Nove de Julho, 50, Bela Vista, região central, tel. (11) 93232-0658. Seg. a sáb.: 9h às 18h. Instagram: pretahub

Estátua da Mãe Preta
Inaugurado em 1995, o monumento de Júlio Guerra relembra as amas de leite —mulheres negras que alimentaram filhos de senhores e patrões durante o período da escravidão. A estátua fica nos fundos da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fundada em 1906 e outro ponto importante da preservação dessa memória. Por ali, acontecem missas afro, com oferendas e cânticos entoados ao som de atabaques.
Lgo. do Paissandú, 55, centro. Seg. a dom.: 24 horas

Estátua de Zumbi dos Palmares
Assinada pelo artista José Maria Ferreira dos Santos, a obra de bronze homenageia o líder do Quilombo dos Palmares e figura histórica cuja data de morte foi escolhida para marcar o Dia da Consciência Negra. A estátua ocupa a praça que já foi sede da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e local de sepultamento de escravos.
Pça. Antônio Prado, 33/61, centro. Seg. a dom.: 24 horas

Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte
Foram nos bancos dessa construção, feita há 210 anos pela Irmandade dos Homens Pardos de Nossa Senhora da Boa Morte, que, pela primeira vez, negros e brancos se sentaram lado a lado numa igreja de São Paulo. Também era ali que escravos condenados à pena de morte no largo da Forca —hoje conhecido como largo da Liberdade— pediam uma boa morte à Nossa Senhora. Daí o nome do lugar.
R. do Carmo, 202, centro, tel. (11) 3101-6889. Horários das missas em bit.ly/2UHvY6T

Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados
Construída em frente ao largo da Forca, como era chamado o atual largo da Liberdade, a igreja e seu entorno integram um dos espaços mais simbólicos da memória negra paulistana e guardam as ossadas de escravos executados no largo, em praça pública. A construção de um memorial afro-brasileiro é prevista para os arredores no futuro.
Pça. da Liberdade, 238, Liberdade, região central, tel. (11) 3208-7591. Seg. a sex.: 8h às 16h

Monumento Luiz Gama
O busto de um dos grandes abolicionistas da história brasileira, criada por Yolando Mallozzi, em 1931, foi o primeiro da cidade a homenagear um líder negro. Nascido em Salvador e vendido como escravo aos dez anos pelo próprio pai, Gama conseguiu se libertar em São Paulo, onde trabalhou como advogado e jornalista e foi responsável pela libertação de mais de 500 pessoas escravizadas.
Lgo. do Arouche, 77, República, região central. Seg. a dom.: 24 horas

Mostra Exuberância
A primeira exposição individual de Moisés Patrício tem visitas agendadas e um tour virtual. Divididas em séries chamadas “Brasilidade”, “Álbum de Família” e “Homenagem ao Mestre Didi”, as obras são marcadas por inspirações que passam pelo tempo, o sagrado, o mundo e a família.
Galeria Estação – r. Ferreira Araújo, 625, Pinheiros, tel. (11) 3813-7253. Seg. a sex.: 11h às 19h. Sáb.: 11h às 15h. Até 12/12. Grátis. É necessário agendar p/ tel. ou contato@galeriaestacao.com.br

Museu Afro Brasil
O acervo do museu, que foi inaugurado em 2004, abraça temas como religião, trabalho, arte, escravidão e a diáspora africana a partir de 6.000 itens como pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e documentos do século 18 até os dias atuais. Os que não quiserem sair de casa podem visitar o museu virtualmente.
Pq. Ibirapuera - av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 10, Vila Mariana, tel. (11) 3320-8900. Ter. a dom.: 11h às 17h. Ingr.: R$ 15 em megaticket.com.br. Menores de dez anos, maiores de 60 anos, pessoa com deficiência e sáb.: grátis. Virtual: artsandculture.google.com/partner/museu-afro-brasil

Rua do Lavapés
A história conta que o encontro das ruas do Lavapés e da Glória —conhecida também como Cinco Esquinas— era tomada por rodas de samba nos anos 1930. Do local, considerado um dos berços do gênero na cidade, também teria partido o primeiro bloco de Carnaval de São Paulo. A história é contada no tour Raízes do Samba, promovido pela Diaspora.Black, mas pausado por enquanto por causa da pandemia da Covid-19.
R. do Lavapés, esquina com a r. da Glória, Liberdade, região central. Seg. a dom.: 24 horas

Fonte: Folha de S.Paulo